quarta-feira, 18 de novembro de 2009

VIVO NA CIDADE


vivo na cidade

condenada ao pó e aos gemidos

povoada por correria e gritos

e meu cansaço

é o de milhões de cidadãos

e minha solidão

não encontra companhia

em nenhum lugar por onde passa



& caço o significado de viver neste espaço

espremido

entre olhos tristes

pó e gemidos

mas não consigo pensar

para onde ir



- outro lugar

onde minha tristeza

seja tão feliz

quanto aqui.

domingo, 18 de outubro de 2009

TRIP


o castanho dos teus olhos
é o castanho dos meus
nossos cumprimentos
parecem adeus
eu continuo comigo
sempre em pedaços
contando meus passos
pro fundo do abismo

o tempo destrói
eu sei você sabe
o tempo destrói
ontem é tarde
não deixe meu coração parar
não me faça parar pra pensar
me faça sentir
em qualquer lugar
mesmo longe daqui

será que sou suas quatro paredes?
será que sou sua fome e pertences?

é escuro
mesmo onde a luz alcança
onde sua boca ilumina
é claro
mesmo onde falta luz
onde seus olhos se fecham
(e desatina)
você dispara
sou eu que engatilha
é triste o fim do dia
é estreita a trilha -
o que não acena é miragem
e este não é
o destino da viagem

eu sinto e não digo
eu sinto o perigo
eu escrevo e não ligo
eu abandono o abrigo
e volto pra mim sem você
sem ninguém pra dizer
onde é o começo
onde é meu fim

domingo, 11 de outubro de 2009

Ritmo


O céu e o sol amanheceram cobertos de sangue

e para onde quer que se vá,

o vento vibra

ao ritmo triste da véspera


e o Inimigo permanece intacto.


O tempo vem buscar nossas vidas pela mão,

nossa dança termina antes da música

e para onde quer que se vá,

o silêncio suspira

ao ritmo triste deste sábado


e o Inimigo permanece intacto


- e enquanto o muito vira pouco

e o forte fica fraco

anjos gritam e sangram sob o céu cinza

do sábado.

terça-feira, 22 de setembro de 2009

UM DOS ANTIGOS... (versos de uns 8 anos atrás...)

Amor,
sangre
e me condene.

Seu sabor
me embebedou
e durante a embriaguez
vi sua verdadeira natureza.

Amor,
vou plantar um sorriso
nestes teus lábios vermelhos de mel
e vou dançar discreto
ao som dos últimos ventos do inverno.

Amor,
sangre em silêncio
e me condene
a um eterno outono,
pois não mereço
sua companhia.

Até onde posso confiar
na sua gentileza?
Até onde as chamas alcançam?
Os gritos e o ranger de dentes
vãoi alcançar até os puros de coração

amor,
bebe da minha boca
o veneno
que não tive coragem
de te dar.

Amor,
não me ouça -
sou o responsável por
toda dor que sinto
e se não fui eu
o arrebatado pela carruagem de fogo,

você
não tem culpa.

segunda-feira, 7 de setembro de 2009

A ERA DOS EXTREMOS ACABOU


A trégua A rua O centro O fim

A guerra continua dentro de mim,

mas agora ando de cabeça erguida,

quase todo sorriso e feridas

e seguindo em frente,

olho o horizonte pontilhado

pelos prédios

e deixo a noite se arrastar

sem me levar com ela -


simplesmente satisfeito com o pôr-do-sol

dançando cansado

da janela

dela -


e não me incomoda mais o pó da estrada

que acena

atento

aos meus passos;


e o tempo

só parece que passa -

mas se arrasta

e rasga,

arranca lascas do coração

e arrasta consigo

o desejo

de conforto,

os desejos contidos em uma oração


e revela dor.


Mas amor,

a Era dos Extremos

acabou.

segunda-feira, 10 de agosto de 2009

DEVANEIO


bailarina
tuas maõs teus dedos
tua silhueta
cabelos e pele
a expressão que teu rosto assume ao fim da tarde
o teu perfume
compõe a paisagem
que invade meu sonho,
o universo ao alcance
do meu olho

bailarina
a tua boca rosa embala meus versos
me faz satisfeito com migalhas
com fogo de palha
e cego para os teus defeitos e falhas

bailarina
teu riso me intriga
teu olhar me desliga
e me obriga sempre a tentar
te impressionar
atrair teu olhar
p/ tudo o que faço

e por mais que eu tente
não me afasto
sigo teu rastro

bailarina
não danço tua dança
nem uso tua aliança
tampouco sustento
sonho ou esperança
de que estas palavras
alcancem teus ouvidos -

são só a expressão de um desejo
cansado
de ser contido

quarta-feira, 29 de julho de 2009

Kurt Cobain - Retrato de uma Ausência



Há umas duas semanas circulou o anúncio da estreia de Kurt Cobain – Retrato de uma Ausência. Mas no bendito dia o documentário estranhamente não estava em cartaz – parecia não existir. Mas na semana passada o filme voltou a constar nos guias culturais, com pré- estreia na Paulista, às 23:10, sábado.
O que eu sabia do documentário é que se tratava da história de Kurt Cobain contada por ele mesmo – na verdade, entrevistas que ele concedeu um ano antes de sua morte, de forma bem espontânea, cheia de palavrões e expressões do tipo “you know?”. É justamente esta história contada a coluna cervical do documentário – as cenas simplesmente ilustram o que Cobain diz. O discurso do líder do Nirvana foi editado de maneira a ter uma coerência cronológica. Assim, começa com a infância tediosa em Aberdeen e passa pela separação dos pais, a adolescência, a descoberta do punk rock, a formação da banda, a tentativa de gravar e a conquista da fama. São raríssimas as cenas do Nirvana em si e de Kurt Cobain só as últimas.
O mais interessante é a maneira que Cobain revela sua devoção à filha e à esposa. Talvez por ter sido fruto de um lar despedaçado, o vocalista e guitarrista pretendia dar o contrário à família. Courtney aparece como uma santa que o salvou da perdição e Frances seu motivo de viver. Mas ao mesmo tempo em que “idealiza” esta família como a que não teve, o compositor do Nirvana fala de seu vício em heroína e tenta justificá-lo (como alívio para as míticas dores de estômago) ou mesmo diminuir sua importância dizendo que usava drogas de “maneira instrumental” (como calmante e para suportar as pressões da fama).
Mas o Cobain de Retrato de uma Ausência talvez surpreenda pela noção que tem do tempo e lugar onde vivia, da geração à que pertencia. Principalmente aos que o imaginavam como alguém introspectivo demais para se preocupar com coisas do tipo “problemas de sua geração”. No documentário, Cobain mostra-se consciente de ser filho de uma geração de pais divorciados e inocência perdida cedo demais, onde as relações humanas já começavam a se deteriorar e as ideias de princípios e ideais na música já não existiam mais.
Sobre sua relação com a fama, Kurt não fala nada além do que sua opinião bem conhecida – da mídia e do público acharem que só por que alguém é famoso tem de expor sua vida particular.
No fundo, as falas do líder do Nirvana não divergem do muito que já foi escrito e falado sobre ele. O que muda na verdade é a perspectiva em que estas coisas são contadas – na de quem as viveu. Isso não impede o documentário de ser uma nova maneira de ver e entender talvez o último grande herói do rock e líder da última grande banda. Bom divertimento!

P.S. Uma coisa que me intrigou foi sobre o título do filme. Em inglês é About a Son, relação nenhuma com o filme. Em português parece mais coerente – Retrato de uma Ausência – mas justamente por não ter nenhuma relação aparente com o título em inglês. Bom, vai entender..