segunda-feira, 21 de abril de 2008


PENSANDO EM RIMBAUD

Tô fumando dentro do carro. Fumando e pensando, mas não sei no que, já que toda vez que uma gota atinge o teto do carro, mudo o rumo dos meus pensamentos. A minha frente, uma mulher tira com um rodo a água da frente da lanchonete. Ao meu lado, uma árvore.
Tô dentro do carro, sem poder molhar a roupa, os sapatos ou os cabelos. A chuva tá lá fora, livre pra cair onde quiser. Penso e relembro. Procuro uma palavra pra resumir o ano que está acabando. Se não o ano, pelo menos o mês que acabou ontem. Desisto e me contento em procurar um adjetivo que descreva o dia. Não encontro nenhuma.
O que eu fiz da minha vida até aqui? Com certeza, bem menos do que meu pai tinha feito quando tinha a minha idade... O que eu posso fazer com a minha vida? O que alguém pode fazer da própria vida? Como esta árvore ao meu lado exerce seu direito de viver? O barulho de uma gota contra o teto interrompe meus pensamentos de novo. Desisto de pensar e me concentro no barulho da chuva. Vez por outra, estilhaços de gotas entram pelo vão da janela que deixei para soprar a fumaça e molham minha mão esquerda e o corpo do cigarro. Volto a pensar e lembro daquele velho medo – de que a vida se torne só uma promessa não cumprida...
O cigarro acaba. Tenho de voltar pro trabalho. Abro a porta e saio. A chuva me recebe com leveza. Quando tranco o carro percebo que aquele medo desperto saiu comigo e penso em Rimbaud - que por delicadeza perdeu a vida.

3 comentários:

Ana Raquel Fernandes disse...

Tocante e melancólico, por verdadeiro.
A vida, uma promessa não cumprida...
E todos esses fantasmas que nos rodeiam. A "proteção" do carro contra a liberdade da chuva. Metáforas da própria vida, cerceada por medos e inquietações, que acabam por diminui-la, desprovendo-a de intensidade e significação...
Muito Bom!!!
:)

Érico Marin disse...

O carro nem o cigarro eram metáforas. Eu realmente estava no carro, vendo a chuva e pensando na vida. Me lembrei de Rimbaud e de como a vida pode pregar peças... Mais uma vez, você foi mais longe do que a intenção do autor...

Anônimo disse...

Perdemos a vida em pequenos atos, eu já conheço sua escrita, pancada, diaria, repentina, como um sopro na vela de aniversário sem o aniversariante.. um pestanejar cego tateando sentimentos e sensaçoes... o Érico que eu lembro... continua cara pq ta muito bom..:)

Marcio