
Ontem,
passei o dia num curioso estado de suspensão.
Ainda surpreso por de repente não estar tão bem,
fumei um cigarro,
tomei um leite, um banho
e fui dormir.
Deus seja louvado.
"I'm never alone, I'm alone all the time"

DELA
Noite, letreiros luminosos, outdoors, fachadas com refletores e placas povoam as margens da Via Dutra. Vez por outra, um farol alto invade os retrovisores me obrigando a mudar de faixa. Fora as letras, fotografias e slogans tudo é mera silhueta, contornos sem forma. Entre as pernas, seguro uma garrafa de vinho de onde bebo de minuto a minuto ou passo pra ela. A noite parece não tocá-la, a paisagem lhe parece só uma cena de filme de sessão da tarde. Falo, ela responde. Estamos eufóricos, mas somos incapazes de compartilhar esta euforia um com o outro. Eu bebo noite, ela só se diverte com a situação. A rodovia termina, a paisagem muda. Marginal. O tráfego torna-se urbano, mais agitado, carros regurgitam gritos, vez por outra um rosto se estampa por detrás de um pára-brisa. Bebo. Ela também. Corpo de bombeiros, enxames de outdoors indicando direções e distâncias, viadutos, pontes, sirenes, fábricas, indústrias, atacados dormem com suas luzes acesas, com seu nomes insônes. Esta paisagem parece despertar-lhe algum interesse. Começo a lhe contar das lembranças que a marginal me traz, de como tudo aqui era mágico quando eu tinha dezesseis anos e como me considerava abençoado por estar tão perto de um lugar como este e finalmente, encontramos um assunto em comum – nossa adolescência e a madrugada paulistana. A garrafa vai se esvaziando, atiro outro cigarro pela janela. Ela me pergunta pra onde estamos indo. Confesso não saber. Digo que estou simplesmente dirigindo - com uma garrafa de vinho ao alcance dos lábios e uma imensa vontade de ver a noite.