sábado, 26 de abril de 2008

dados biográficos (ou + do mesmo)


Ontem,
passei o dia num curioso estado de suspensão.
Ainda surpreso por de repente não estar tão bem,
fumei um cigarro,
tomei um leite, um banho
e fui dormir.

Deus seja louvado.

quinta-feira, 24 de abril de 2008

Velhos Tempos...



DELA

Noite, letreiros luminosos, outdoors, fachadas com refletores e placas povoam as margens da Via Dutra. Vez por outra, um farol alto invade os retrovisores me obrigando a mudar de faixa. Fora as letras, fotografias e slogans tudo é mera silhueta, contornos sem forma. Entre as pernas, seguro uma garrafa de vinho de onde bebo de minuto a minuto ou passo pra ela. A noite parece não tocá-la, a paisagem lhe parece só uma cena de filme de sessão da tarde. Falo, ela responde. Estamos eufóricos, mas somos incapazes de compartilhar esta euforia um com o outro. Eu bebo noite, ela só se diverte com a situação. A rodovia termina, a paisagem muda. Marginal. O tráfego torna-se urbano, mais agitado, carros regurgitam gritos, vez por outra um rosto se estampa por detrás de um pára-brisa. Bebo. Ela também. Corpo de bombeiros, enxames de outdoors indicando direções e distâncias, viadutos, pontes, sirenes, fábricas, indústrias, atacados dormem com suas luzes acesas, com seu nomes insônes. Esta paisagem parece despertar-lhe algum interesse. Começo a lhe contar das lembranças que a marginal me traz, de como tudo aqui era mágico quando eu tinha dezesseis anos e como me considerava abençoado por estar tão perto de um lugar como este e finalmente, encontramos um assunto em comum – nossa adolescência e a madrugada paulistana. A garrafa vai se esvaziando, atiro outro cigarro pela janela. Ela me pergunta pra onde estamos indo. Confesso não saber. Digo que estou simplesmente dirigindo - com uma garrafa de vinho ao alcance dos lábios e uma imensa vontade de ver a noite.

segunda-feira, 21 de abril de 2008



PENSANDO EM RIMBAUD

Tô fumando dentro do carro. Fumando e pensando, mas não sei no que, já que toda vez que uma gota atinge o teto do carro, mudo o rumo dos meus pensamentos. A minha frente, uma mulher tira com um rodo a água da frente da lanchonete. Ao meu lado, uma árvore.
Tô dentro do carro, sem poder molhar a roupa, os sapatos ou os cabelos. A chuva tá lá fora, livre pra cair onde quiser. Penso e relembro. Procuro uma palavra pra resumir o ano que está acabando. Se não o ano, pelo menos o mês que acabou ontem. Desisto e me contento em procurar um adjetivo que descreva o dia. Não encontro nenhuma.
O que eu fiz da minha vida até aqui? Com certeza, bem menos do que meu pai tinha feito quando tinha a minha idade... O que eu posso fazer com a minha vida? O que alguém pode fazer da própria vida? Como esta árvore ao meu lado exerce seu direito de viver? O barulho de uma gota contra o teto interrompe meus pensamentos de novo. Desisto de pensar e me concentro no barulho da chuva. Vez por outra, estilhaços de gotas entram pelo vão da janela que deixei para soprar a fumaça e molham minha mão esquerda e o corpo do cigarro. Volto a pensar e lembro daquele velho medo – de que a vida se torne só uma promessa não cumprida...
O cigarro acaba. Tenho de voltar pro trabalho. Abro a porta e saio. A chuva me recebe com leveza. Quando tranco o carro percebo que aquele medo desperto saiu comigo e penso em Rimbaud - que por delicadeza perdeu a vida.


VENHO

Entro pela porta que combinamos dela deixar destrancada. Os pais dela estão viajando, a casa está vazia. Da sala ouço barulho de louça sendo lavada. Posso vê-la da porta da cozinha, enxaguando a louça. Pela sua atitude, não me percebeu chegando. Digo oi. Ela se assusta. Se vira e sorri sem jeito. Diz que cheguei mais cedo do que ela esperava.
A noite sopra. A noite envolve a casa. O sofá é nosso. Nossa vida se cumprimenta e pára pra conversar. Nossas vidas se confundem por um instante, como nossas palavras, bocas e olhares. Tento esconder minha euforia. Rimos loucos. Rimos, rimos, rimos, rimos pela noite que acena do outro lado das janelas. Na boca dela um sorriso constante, indestrutível. Passamos meses planejando esta noite. Passamos meses nos reconhecendo, nos estudando, nos medindo, nos calculando um ao outro.
“Passa a noite aqui”, ela diz depois de um sorriso quente. Aceito. Dormimos.
Quando acordo a noite é só lembrança e ela é só a desconhecida de anteontem.

A Cidade



A CIDADE

a cidade é sua

a cidade é minha

é eu comigo

é você sozinha

a cidade

é só saudade

Hoje... (e sempre?)


"I'm never alone
I'm alone all the time"

quarta-feira, 2 de abril de 2008

Intervalo - Reflexões...


"I light another cigarette
Learn to forget..."