quarta-feira, 28 de janeiro de 2009

CANCIONEIRO DEVÁCIDO


PASTA DE DENTE BARATA

o castanho dos teus olhos
é o castanho dos meus
nossos cumprimentos
parecem adeus
eu continuo comigo
sempre em pedaços
contando meus passos
pro fundo do abismo

o tempo destrói
eu sei você sabe
o tempo destrói
ontem é tarde
não deixe meu coração parar
não me faça parar pra pensar
me faça sentir
em qualquer lugar
mesmo longe daqui

será que sou suas quatro paredes?
será que sou sua fome e pertences?

é escuro
mesmo onde a luz alcança
onde sua boca ilumina
é claro
mesmo onde falta luz
onde seus olhos se fecham
(e desatina)
você dispara
sou eu que engatilha
é triste o fim do dia
é estreita a trilha -
o que não acena é miragem
e este não é
o destino da viagem

eu sinto e não digo
eu sinto o perigo
eu escrevo e não ligo
eu abandono o abrigo
e volto pra mim sem você
sem ninguém pra dizer
onde eu começo
onde é meu fim

terça-feira, 27 de janeiro de 2009


Sinto a ausência do que nunca esteve aqui

e o silêncio que cala a voz que nunca ouvi;

sinto a dor da queda que nunca caí

e a beleza das manhãs que nunca vi -

sinto muito

pelos pecados que não cometi

e por isso

morro todo dia

as vidas

que não vivi.

segunda-feira, 19 de janeiro de 2009

SEMÁFOROS


Vejo os semáforos - o sinal vermelho instaura pausas na cidade frenética, torna mais lento o trânsito que se arrasta sob e sobre nossas cabeças - o sinal verde impõe o ritmo acelerado das ruas e avenidas e esquinas e cruzamentos - sinais verde e vermelho sobre as faixas de pedestre, sob as plantas dos pés, decorando as cidades.
Vejo os semáforos - reluzentes sorrisos femininos abrindo as asas nas manhãs e tardes, atrás e além dos pára-brisas sujos de garoa empoeirada - ofuscantes sorrisos femininos flutuando e tumultuando a noite metropolitana - semáforos, caixas de luz, fusíveis, o termômetro da agitação, o metrônomo das noites e dias, o ritmo colorido do entusiasmo das avenidas e seus selvagens rios vítreo- metálicos - mendigos acenam das calçadas - vira-latas hesitantes atravessam as avenidas no momento em que as esferas vermelhas vivas impõem uma trégua no curso gritante da cidade sem corpo, cara e uma infinidade de braços, raízes, ventosas e ramificações - verde e amarelo - vermelho...

sexta-feira, 16 de janeiro de 2009

NÃO VEJO SENTIDO

não vejo sentido
no que tenho sentido
nem no sentido
que tenho seguido
mas continuo
sem alarde
sem alarido

quinta-feira, 15 de janeiro de 2009


ESPIRAL






O mundo
gira
inspira
conspira
dá e tira
e quem pensa que pode entendê-lo
coitado!
delira...

domingo, 11 de janeiro de 2009


CECAP (ASFALTO & TONS PASTÉIS)


pela madrugada
os caminhões de entulho arrastam suas carcaças
depositando em terrenos baldios
a melancolia
(dos dias que não passam)

sábado, 10 de janeiro de 2009


TINHA

Panasonic
Semp-Toshiba
Nike
Mc' Donalds
Pentium
Brastemp
Tinha tudo quanto é marca no carrinho do catador de papelão

sexta-feira, 9 de janeiro de 2009


LACÔNICOS






OS PONTEIROS CORREM

O MUNDO ACORDA E DORME

O RELÓGIO DÁ VOLTAS E MAIS VOLTAS

O SOL PERDE E RECUPERA O BRILHO

E A GENTE CONTINUA AQUI,
SEM RESPOSTAS,
SEM SABER POR QUE FAZEMOS ISTO OU AQUILO -

só tentando preencher nosso vazio.

quinta-feira, 8 de janeiro de 2009

CONTO (Premiado?)


MARIANA SOB A CHUVA

Chove. Mariana está encolhida em um ponto de ônibus, junto com uma pequena multidão também surpreendida pela chuva. Ônibus cheios, de vidros embaçados e carros com faróis acesos passam. As sandálias e a ponta do vestido indiano de Mariana estão molhados. Seus cabelos só úmidos. Mariana aperta a bolsa hippie contra o peito. Chove forte. Ela pensa em correr. Mas, seria inútil. Aonde quer que fosse, chegaria ensopada. Enfim, resolve ficar ali e se conforma em assistir as gotas de chuva pesada caírem.
Satisfeita, Mariana acompanha a água encher de brilho a pele cinza da cidade.

quarta-feira, 7 de janeiro de 2009

ARGUMENTO


Estou sozinho
& cansado demais p/ pensar
& cansado demais p/ dormir
mas nem todo este cansaço me faz parar a busca,
nesta procura nem falta de medo me assusta.
Viver ou morrer? Tanto faz -
tô mesmo é a fim de existir.
Pelo menos, até encontrar uma razão
p/ estar aqui.

Espero na alma, na carne e na pele,
que a vida enfim se revele.

O que dizer quando o que se quer
é tudo o que não se pode ter?
O que fazer quando o que se sente
é só ausência de prazer?
O que mais me resta?
O que me interessa?
Sei que a vida passa -
por isso tenho pressa.