terça-feira, 21 de abril de 2009

LATENTE


DEPOIMENTO

Estou só e cansado demais pra pensar, cansado demais pra dormir,
Tentando entender por que me sinto assim,
querendo tudo o que não posso ter
sentindo nada a não ser ausência de prazer
estou só - cansado de me sentir cansado, cansado de não conseguir descanso
estou só - eu e a solidão dividindo a cama
outra noite encenando o mesmo drama – continuo aqui, a noite passa e eu não consigo dormir
vivendo morrendo tentando existir
vivendo e morrendo vivo à procura de motivo
pra estar aqui
e apesar de tanto cansaço
não desisto da busca
insisto resisto existo não desisto
e nem minha falta de medo me assusta
se a vida é guerra, eu quero paz
se a vida é trégua, eu quero luta
e nada mais me resta, nada mais me interessa
só a vida - e se a vida existe será que alguém me empresta?
e nada mais me resta, nada me interessa –
a vida passa eu tenho pressa
quero procurar na carne e na pele
até que a vida enfim se revele
quero procurar mesmo suspeitando que a vida
vai estar sempre em outro lugar.

sábado, 18 de abril de 2009

He wanted more than he could steal


Dia 8 fez 15 anos da morte de Kurt Cobain. Quem lembrou pode não ter se importado - afinal, ele foi só um roqueiro viciado em drogas e morto precocemente (com 27 anos). Eu lembrei e não só me importei como até elaborei esta humilde homenagem ao vocalista e guitarrista do Nirvana. Deve fazer uns 10 anos que tive o primeiro contato com o som da banda (e nem foi com Nevermind) e tive uma fase de ouvir só Nirvana, aprendi a tocar uma pá de sons deles (embora a maioria de uma forma quase irreconhecível) e olhando o panorama musical de hoje, sinto que a última grande banda foi o Nirvana e Kurt o "último grande herói" do rock. A música dele lembrava exorcismo, confronto direto com a dor (não só com a dele, mas de todo ser humano). Do timbre à entonação, a voz de Cobain sugeria uma discussão com demônios íntimos, seus versos remetiam a experiências pessoais mas universais em essência e apesar da linguagem cifrada da maior parte das letras, o riff ou a melodia comunicavam o sentido delas. Enfim, canções destinadas a não serem esquecidas desde que suas verdades tenham sido uma vez apreendidas. E talvez por isso eu ainda ouça smells like teen spirit e lithium e pennyroyal tea e heart-shaped box ainda me chamem a atenção e ainda sinta um frio na espinha ouvindo you know you're right e all apologies. Além disso, mais do que lembrar minha adolescência, estas músicas falam de coisas com as quais ainda me identifico...

segunda-feira, 13 de abril de 2009

LISTO


procuro

quando muito perco

tento

procuro abrigo teto

céu onde exercitar as asas

reviver lembranças

que o presente ainda não enterrou



a intensidade de uma rua coberta

de azulejos fluorescentes

e céus salpicados de lábios femininos



não há saída

nem chance de libertação.

plantei cruzes

nas calçadas

no altar

calço os tênis vago ando

repito os passos dos meus pais

negocio tristezas com os outros passageiros deste ônibus

desgovernado chamado Vida.


meus heróis estão mortos e enterrados

se suicidaram cometeram suicídio

ou morreram de tédio

e foram esquecidos

pelo País Sem Memória



os versos dos meus amigos vão embolorando

no fundo da gaveta

junto com os livros

dos nossos

heróis decadentes


e o que sobra vegeta

mergulha num triste pântano vegetal

esperando que um sorriso opaco

devolva aos sonhos

o brilho original.


mas se nossos olhos anoiteceram

sob as fachadas encardidas

de fuligem

nosso coração ainda vibra

ao som daquelas músicas que

sustentaram nossos delírios

e nossas bocas ainda ecoam

a

luz primordial

(pela qual continuamos

sedentos

ansiosos

viciados)

sexta-feira, 10 de abril de 2009

a sombra é para poucos


O corpo linha paralela ao colchão chora lágrimas enfermas.
As noites correm com suas pernas femininas e ágeis.
Desejo.
O gosto delas, o gosto dela é quente brilhante excita ameaça acua.
O corpo, condutor de sensações.
A alma respira aflita.
Ela suspira calor, transpira energia os valores da terra.

Volto para casa,
pro meu quarto,
pro meu mundo de perímetro limitado.
Desejo.
Eu a desejo.
Sangue e sabor.
Sílabas iluminadas
Sílabas tatuadas na pele ardente e cheirosa de inúmeras noites gravadas nos meus olhos. Desejo.
Desejo.
Os pêlos acompanhando o apelo do hálito dela.
Desejo.
Outro copo, outro corpo, outra dose, outra pose, outra vida,
noites e noites amontoadas na memória.
Estive lá,
tive lá as melhores experiências.
Seu palácio também é noturno.
O sol continua parado emitindo seu brilho pálido pelos trópicos,
por um mundo mergulhado num eterno inverno.
Minhas veias e órgãos exaustos.
A noite virá semeando tragédias delicadas.
Meu corpo chora o azul e o bronze de reinos que só a noite governa.
A noite nos cabelos na crina a noite em cima a noite-enzima.
O corpo tentando dizer o que a alma desconfia,
a alma falando ao compasso desigual do corpo,
olhos desalinhados, veias, galhos e órgãos em miséria.

A noite –
essa droga vicia mata tempera ensina a intimidade com o abismo,
você sabe, eu sei,
há sempre a possibilidade de um replay,
mas esta noite é esta, não aquela – agora o amor a promessa e a dívida não passam do brilho aleijado do sol visto da minha janela.

quarta-feira, 1 de abril de 2009

Desabafo


Ess p*** é uma zona:
chega-se ao céu com o gosto de lona na boca. pensa-se que é esperto batendo toca e o mesmo cansaço e ninguém percebe a vida em greve e ninguém se atreve a reivindicar o essencial e finge não ver que o que nos fazem é para o nosso mal. é festa pra tudo quanto é lado, é riso, é tv, futebol, piada. é festa pra tudo quanto é lado como se não houvesse nada errado. é riso, riso e funk carioca, jornal sensacionalista e revista de fofoca e todo mundo dando risada como se não estivesse acontecendo nada nos bastidores do poder, como se não tivesse mais nada pra fazer. o país parecendo satisfeito com o pão e o circo, com pagar o mico de ser o país que é, esperando que a solução venha do futuro ou da estagnação, da fé e tudo é festa, festa pra todo lado, som alto, bico calado, mulek de Nike doze molas e minas de salto, o cinza dando lugar ao azul, a pele dando lugar ao asfalto, o real dando lugar ao falso, a esperança dando lugar ao boato e todo mundo na festa. é festa e cerveja pra tudo quanto é lado, como se o baralho não estivesse marcado e a maioria estivesse fora do jogo do poder, sem condições de viver. mas tem festa - o que atesta que talvez até saibam, mas ninguém quer ver.